



Nego Bispo (1959-2023) via as palavras como sementes. Antes de irem para o papel, elas desenham imagens no ar, entram em nossas cabeças e germinam mundos. Quem já ouviu um bom contador de histórias sabe.
Filho do Quilombo Saco Curtume, no Piauí, Bispo aprendeu ouvindo, observando e praticando com seus mestres e mestras. “Não fizemos os quilombos sozinhos. Foi preciso trazer os nossos saberes da África, mas os povos indígenas daqui nos mostraram que o que lá funcionava de um jeito, aqui funcionava de outro. Nessa confluência de saberes, formamos os quilombos, inventados pelos povos afroconfluentes, em conversa com os povos indígenas.”
Assim os povos tradicionais cultivam o conhecimento ancestral, a teia de pertencimento e a harmonia com os ciclos. Semeando a palavra viva.
Por necessidade, e para enfrentar as violências contra seu território, Bispo refletia sobre a força de dar nome às coisas. Lembrava que o vocabulário pode limitar ou ampliar a realidade, moldando nosso olhar sem que percebamos. Por isso dizia que é preciso enfraquecer as palavras que invalidam quem somos. Quando alguém chega em uma comunidade tradicional falando em desenvolvimento, que retruquemos: “o desenvolvimento desconecta, que a palavra boa é envolvimento.” Ora, os “desenvolvidos” que se envolvam.
Não é acaso, é comunhão com a natureza, é confluência: “Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio, ao contrário, ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece.” Assim também os povos.
Ele lembrava que adestrar um bicho e colonizar um povo é semelhante: impõe-se um modo de vida, quebra-se a identidade, rouba-se a palavra, afasta-se dos sagrados. Mostrava que a ancestralidade e as comunidades tradicionais guardam as forças que nos impulsionam ao renascimento.
Para transformar a sociedade presa à ganância, ao egoísmo e ao consumo, precisamos beber dos conhecimentos dos povos da floresta e germinar outro mundo possível.
“Enquanto você ensinar o que eu lhe ensinei, eu estou vivo. Se você parar de ensinar, você me mata”. Bispo presente.
Saiba mais:
“A terra dá, a terra quer”, de Antônio Bispo dos Santos. São Paulo. Ubu Editora/ Piseagrama, 2023: https://abre.ai/piseagrama
