O futuro brota do passado: Milpa, o consórcio indígena de mais de 1000 anos

No deserto do Atacama, onde cultivar alimentos parece improvável, povos pré-Incas criaram zonas agroecológicas férteis há mais de mil anos. Como? Com sabedoria e observação da natureza: plantavam um consórcio de espécies chamado MILPA (milho, feijão e abóbora) e fertilizavam o solo com guano, o excremento riquíssimo de aves marinhas como pelicanos, atobás e cormorões.


No MILPA, o milho serve de tutor para o feijão subir, o feijão fixa nitrogênio no solo, e a abóbora cobre o chão, abafando as plantas concorrentes. Um consórcio de espécies que se ajudam, se equilibram e se fortalecem mutuamente. Estudar essas parcerias é resgatar a inteligência dos antigos. Como eles conseguiam aumentar a produtividade sem degradar o solo, sem envenenar o alimento? Há muita ciência a ser feita ouvindo os povos que sempre cultivaram com respeito à terra. Porque, sejamos honestos: ninguém bem-informado e bem-intencionado pode defender o uso de venenos que fazem mal para todos: para as águas, para o solo, para quem planta e para quem come.


O guano era recolhido na costa litorânea onde essas aves marinhas formam colônias para se reproduzir (nidificação). Um estudo publicado na Nature (2021) analisou 246 plantas do deserto (milho, quinoa, pimentas) e encontrou nelas nitrogênio marinho, datando seu uso entre os anos 1000 e 1400. O adubo natural era riquíssimo em nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca) e magnésio (Mg). Esses são macronutrientes primários e secundários essenciais para o desenvolvimento das plantas.

Hoje, esse conhecimento ancestral ressurge como base da agroecologia e das relações humanas. É o caminho para a agricultura familiar e para a restauração dos ecossistemas no Brasil. Desde 2006, a Lei nº 11.326 estabelece políticas públicas voltadas à agricultura familiar. E, em 2024, o Decreto nº 12.287 criou o Programa Nacional de Pesquisa e Inovação para a Agricultura Familiar e a Agroecologia (PNPIAF), promovendo uma transição agroecológica inspirada, inclusive, em práticas como essa. Como tenta abrir nossos olhos para a reconexão com os saberes antigos, Krenak tem ecoado com o mantra: o futuro é ancestral (2022).

Saiba mais:
Santana-Sagredo, F. et al. ‘White gold’ guano fertilizer drove agricultural intensification in the Atacama Desert from ad 1000. Nat. Plants 7, 152–158 (2021). https://doi.org/10.1038/s41477-020-00835-4
GOMES, G. C. et al. Milpa: estratégia pré-colombiana para a produção de alimentos. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, [s.d.]: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/895790/1/panfletomilpa.pdf
“Guano – o excremento que mudou a geografia do mundo”. O Portal do Geólogo: https://bit.ly/3oE5NL0
Lei nº 11.326/2006: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11326.htm
Decreto nº 12.287/2024 (PNPIAF): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/decreto/D12287.htm
Flecha 6 – Tempo e Amor | Selvagem ciclo de estudos sobre a vida:
https://youtu.be/PeMBCABxXCQ?si=rbD8uVFDNS45ppNJ

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *