Mapa da Fome

33 milhões de pessoas estão em situação de fome no Brasil, segundo dados do novo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar feito pela rede Penssan com apoio da Ação da Cidadania. Mulheres negras da região Norte e Nordeste são as mais afetadas, com 65% das famílias chefiadas por elas passando algum tipo de insuficiência alimentar e desnutrição. O custo social da fome é caro, com impacto na saúde, na educação, no trabalho e na sociedade.

Rodrigo Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania fundada pelo sociólogo Betinho em 1993, explica que a volta do país ao Mapa da Fome é uma decisão política, uma vez que o Brasil tem os instrumentos, os recursos e a experiência para erradicá-la. Não faz sentido batermos recordes de exportação de grãos das monoculturas dizendo que é para alimentar o mundo, enquanto 33 milhões de brasileiros não tem comida na mesa.  

Aqui, as pessoas comem arroz e feijão, não soja. No entanto, a área de produção de arroz e feijão diminuiu em 70% e o programa de estoques de regulação da Conab, abastecido principalmente por compras da agricultura familiar, também acabou. Outros alimentos tradicionalmente consumidos no país estão deixando de ser produzidos por falta de incentivo. 

O Instituto Brasileiro do Feijão e dos Pulses – IBRAFE – explica o problema dessa mudança em reportagem da BBC: “Se as classes menos favorecidas estão comendo menos feijão, o que estão comendo? Mais bolacha e macarrão? O feijão é uma das proteínas vegetais mais baratas que existem. É uma das últimas barreiras contra a fome” 

Com o desmonte de diversas políticas de segurança alimentar, não tem sido possível amortecer o aumento do preço do feijão e do arroz no mercado interno. Segundo a Conab, o estoque público de feijão está zerado desde 2017. A FAO recomenda que o país tenha pelo menos três meses de estoque dos produtos básicos, como o feijão.

“O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014 com políticas públicas de assistência social e programas de segurança alimentar. Estes instrumentos foram dizimados. O conselho de segurança alimentar, que unia sociedade civil e governo, foi extinto por Bolsonaro. O Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) foi congelado. E, agora, o governo trata segurança alimentar como negócio”. 

Enquanto agricultores familiares produzem sem apoio do governo, o agronegócio exportador recebe bilhões em subsídios, empréstimos e isenções de impostos. Dados do Banco Central mostram que só entre 2019 e 2020 a soja recebeu R$ 62 bilhões em créditos. A conta do agronegócio não fecha. O setor não consegue ficar em pé sem ajuda do governo e é altamente dependente de fatores externos, como compra de fertilizantes, agrotóxicos e sementes patenteadas. 

Por outro lado, sabemos que é a agricultura familiar que verdadeiramente bota comida na mesa. Lutemos pela urgente transformação e democratização do controle da produção, com o fortalecimento de pequenos produtores rurais. O campo precisa de uma verdadeira intensificação ecológica, substituindo as monoculturas de commodities que deterioram os ecossistemas para uma rica produção de alimentos diversos.

Saiba mais:

‘Governo trata segurança alimentar como negócio’, diz sucessor de Betinho – Folha de S.Paulo: https://bit.ly/3QmiFEx

Por que agricultores brasileiros estão deixando de plantar feijão — e o que isso tem a ver com a fome – BBC: https://bbc.in/3xp0MvTA extinção do feijão com arroz – Folha de S Paulo: https://bit.ly/3rdJtN6

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.