Quem carrega a água?

A crise da água nos ombros de mulheres e meninas, que cultivam o cuidado com a vida e a terra, mas ainda são silenciadas nas decisões

“Lata d’água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Maria.” Essa música de 1952, eternizada na voz de Marlene, traz uma reflexão sobre a vida de milhares de mulheres no Brasil e no mundo.

Em casas ainda sem abastecimento de água potável e sem saneamento básico, são ELAS, desde meninas, que vão buscar água no rio, riacho, bica, caminhão-pipa ou onde for.

São ELAS, também, que aprendem os melhores caminhos para chegar às fontes, inventam maneiras de aliviar o peso no transporte (na cabeça?) e descobrem a forma mais econômica de aproveitar cada gota, assim como armazenar com segurança os baldes com água.

Em até 85% dos casos, dependendo da pobreza de cada país ou região, ELAS ficam também com a responsabilidade de cozinhar com a água que coletaram para toda a família, limpar a casa e cuidar dos mais novos e dos mais velhos.

Essa é uma questão estudada internacionalmente há anos. A UN-Water produziu um relatório em 2006 para levantar o debate sobre a necessidade de abordar as dificuldades que ELAS, as mulheres, enfrentam em relação à falta de água, saneamento e higiene, bem como as privações no acesso à educação e à saúde.

Este ano, uma reportagem da Folha de S.Paulo abordou como são ELAS que estão na linha de frente do cuidado da casa e da família, que mais sofrem o impacto da crise hídrica nos 55 municípios sem água no Vale do Jequitinhonha.

A tese de doutorado de Thaís Zimovski investigou como ELAS se relacionam com a água e com os espaços de decisão sobre sua gestão, especialmente no Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio das Velhas. A pesquisa abordou vozes historicamente apagadas, valorizando saberes locais e modos diversos de viver e conviver com a natureza.

Em 2023, um outro relatório da UNICEF confirmou mais uma vez que, em lares sem acesso direto à água potável, tem sido DELAS a tarefa de coletá-la diariamente: “Na maioria dos casos, mulheres e meninas percorrem distâncias maiores para buscar água, perdendo tempo que poderia ser dedicado à educação, ao trabalho e ao lazer, além de se exporem ao risco de lesões físicas e perigos durante o trajeto.” ELAS são responsáveis por essa atividade em 70% dos domicílios sem abastecimento de água, enquanto homens e meninos assumem essa tarefa em apenas 30% dos casos.

A crise hídrica não é neutra: ela tem gênero e classe. E só será vencida quando ouvirmos quem carrega latas d’água na cabeça todos os dias.

Saiba mais:
FERREIRA, Catarina. Falta d’água afeta mais a vida das mulheres em cidades do Vale do Jequitinhonha, em MG. Folha de S.Paulo, São Paulo, 16 mar. 2025. https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2025/03/falta-dagua-afeta-mais-a-vida-das-mulheres-em-cidades-do-vale-do-jequitinhonha-em-mg.shtml.
Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Mulheres e meninas são as mais afetadas pela crise de água e saneamento, revela novo relatório da UNICEF e OMS. UNICEF, Nova Iorque/Genebra, 5 jul. 2023. Disponível em: https://www.unicef.org/press-releases/women-and-girls-bear-brunt-water-and-sanitation-crisis-new-unicef-who-report.
UN-WATER. Gender, Water and Sanitation: A Policy Brief. 2006. Disponível em: https://www.unwater.org/publications/gender-water-and-sanitation-policy-brief.
OLIVEIRA, Thaís Zimovski Garcia de. Experiências políticas de mulheres com a água: organizando relações hidrossociais à luz do feminismo decolonial. 2023. 148 f. Tese (Doutorado em Administração) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Ciências Econômicas, Centro de Pós-Graduação e Pesquisas em Administração, Belo Horizonte, 2023: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/56179/1/tese_thais_final_final.pdf
MARLENE. Lata D’água, 1952. YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=JOL4PfGe-lk.

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